DO PORTO MONIZ AO LOPES DA SILVA E À “MARÉ” AZUL DO FC PORTO
Lá no norte – onde para muitos tudo é distante -, tudo começou. Aos 4 anos e em casa, a bola andava de um lado para o outro, impulsionada pelo vício de um puto chamado Luís Andrade. Do outro lado da parede perfilhava-se uma solução: o futsal do Porto Moniz, ele pediu, a mãe anuíu e ele, carregadinho de emoção, lá foi… Estava longe de pensar que a mochila, logo logo o iria conduzir à Ribeira Brava, à Escola do Benfica e mais… Como o vento nortenho, outros ares sopraram e daquele “saco” inicial de ideias se construíram “balões” que virariam amontoado de sonhos que o conservam no Canicense mas com etapas vividas pela Selecção da Madeira com o filme a ser igualmente “rodado” no FC Porto.

O Luís, em entrevista à nossa Bola Gira, conta tudo de seguida toda a sua história.
BOLA GIRA – Como é que tudo começou?
Luís Andrade – Foi uma ideia da minha mãe, pôr-me no futsal, na sequência de um pedido meu, quando tinha 4 anos e vivia no Porto Moniz. Eu era muito viciado com a bola de futebol, estava sempre a jogar, pedi e fui… Havia jogos que nem conseguia dormir, estava sempre a sonhar. Lembro-me que jogava sempre com os mais velhos porque não havia para sub 4 ou sub 5…

No Porto Moniz a tendência é jogar futsal mas acabei aos 7 anos, se bem que, depois, no Ribeira Brava ainda tivesse jogado em alguns torneios.
B.G – Quando se sai do Porto Moniz pensa-se em quê?
L.A – Ainda me lembro de como foi… O presidente, tanto no pavilhão como ao lado no cimento, a perguntar-me se tinha a certeza de que queria ir. Tinha 4 anos, aos 7 fui para o CD Ribeira Brava. Fui porque tinha mudado de residência e os meus pais puseram-me no clube. Estive lá três anos, lembro-me que os primeiros treinadores eram os misters Paulo e Délio. Jogava a médio e aos poucos comecei a perceber que tinha qualidade. Ganhei o prémio revelação no aniversário do Ribeira Brava, depois fui o segundo melhor marcador no Torneio do CR7 e queriam que fosse para o Sporting da Madeira. Desde pequeno que também desejavam que fosse para o Marítimo e para o Nacional. Mais tarde, quando fui para o Benfica continuavam sempre a dizer para ir para o Marítimo, mais ainda quando havia torneios…

B.G – E como caracterizarias a tua passagem pelo CD Ribeira Brava?
L.A – Foi incrível…! Cresci muito, tive também a sorte de ter apanhado bons treinadores, que me deram muita confiança para seguir em frente, de que é um bom exemplo o Clésio.
B.G – Fala-me das tuas características…
L.A. – Era esquerdino, jogava sempre a médio, era forte, ainda me lembro, por exemplo, de um torneio na relva, na Santa, um torneio aberto com outros clubes. Mais tarde, com 10 anos, fui para a Escola do Benfica da Madeira, estive dois anos e a partir dos 13 anos ainda treinava lá mas jogava no Canicense.
BG – Quando é que sentiste que poderias ter uma maior legitimidade a aspirar a algo mais?
L.A – Foi a partir dos 13 anos, já no Canicense, numa época em que tive o Carlo (Andrade) como treinador, que comecei a pensar e a acreditar que era possível fazer e ter mais… Também pelos feedbacks que recebia de várias pessoas.
B.G – No último defeso, nos circuitos da bola jovem, falava-se que o teu futuro passaria pelo CD Nacional. O que é que se passou de concreto?
L.A – Nunca confirmei nada, tinha sempre gente a ligar, o meu pai dizia para esperar, não queríamos decidir à pressa. Falámos bastante e decidiu-se pela continuidade no Canicense.

Uma ligeira paragem com Luís a prosseguir o seu raciocínio:
Vivo um bom momento, sinto-me actualmente bem e noto que o meu valor está a ser reconhecido, está a ser visível aqui e lá no continente. Quando estava no Ribeira Brava também estava bem mas não tinha a mesma projecção que pude ter agora.
CANICENSE TRABALHA AO NÍVEL DOS GRANDES
«Obviamente que sim, podemos não ter as mesmas condições de alguns clubes mas estamos a trabalhar muito bem» Luís, do alto dos seus 14 anos, diz claramente concordar com a ideia de quem considera que o seu actual clube trabalha ao nível dos grandes da ilha. «Não sou só eu que digo, as pessoas estão lá por paixão e sempre a trabalhar para que o clube possa crescer mais. Trabalhamos e queremos a mesma coisa que os grandes, por isso também fiquei, dizem que é no Marítimo e no Nacional que nos destacamos mas a verdade é que também aqui o mesmo acontece».
Uma ligeira pausa e atira: «temos qualidade de treino, temos uma forma muito especial de querer as coisas e trabalhamos todos para o mesmo». E se dúvidas existem, aponta o trabalho do Canicense como aquele que o fez ir não só à Selecção da Madeira como ao Lopes da Silva e à beira dos tubarões do futebol nacional, abrindo-se também a porta ao FC Porto.
Quando a conversa versou o que se podia esperar dos sub-17 do Canicense para a nova época, Luís não deixou de dizer que «temos jovens promessas e muitos jogadores que vai dar vontade de ver»
TEM 14 ANOS E JOGA NOS SUB-17
«CRESCE-SE MUITO POR LÁ…!»
Luís tem 14 anos como se disse e joga nos sub-17 do Canicense. Um salto gigante que encara com naturalidade, respeitando o passado e o presente. «Sim, faço 15 anos em Janeiro mas a verdade é que se cresce muito por lá (Canicense). Lembro-me que no início levava porrada, mas era apenas uma forma de habituar-me às exigências. Acredito que ainda terei possibilidade de vir a jogar nos juniores. o facto de nunca ter tido nenhum problema físico também me ajudou mas a verdade é que sentia mais motivação jogar contra maiores de idade. Também acho que é na maior dificuldade que se evolui, adquirindo-se também maior experiência»
«TINHA MAIS OLHEIROS EM DOIS JOGOS-TREINO QUE CÁ EM TODOS ESTES ANOS…»
A certa altura esta entrevista, perguntámos-lhe qual era a sua opinião sobre o futebol actual na Madeira e Luís não se furtou à questão.
«Acho que está em crescimento mas sem dúvida que ainda é um mundo à parte do que se passa lá fora. Dou um exemplo na questão da visibilidade quando estive no FC Porto, em que fizemos dois jogos-treino contra o Feirense e Rio Ave, nos sub-15, com o Santiago
Ferro, em que tinha mais olheiros do que aqui em todos estes anos e onde sentes ter muita mais gente a ver». Luís não tem dúvidas de que Marítimo e Nacional têm «de crescer mais se querem chegar longe na Formação, têm exigência mas é preciso puxar mais pelos atletas, acreditando bem mais nos jogadores que formam». É por essa razão, diz, que os jogadores de cá mudam para outras paragens. «Mudam porque os clubes pequenos de lá são melhores que os maiores de cá, têm outro nível de visão. Falamos de um mundo diferente e da minha parte, se puder, também optarei por ir. Na Madeira temos vontade de querer jogar, a nossa raça é essa, quem quer mesmo não desiste e a verdade é que os madeirenses lá fora vão-se destacando em vários pontos. A Madeira cresce e esses clubes também».
TORNEIO LOPES DA SILVA
DEI A MINHA VIDA E… CONSEGUI…!
Luís não tem a menor dúvida e pese embora ainda seja um jovem, mesmo que promissor, já teve a ocasião de vivenciar momentos verdadeiramente especiais na sua carreira, elegendo, contudo, o mais alto quando participou com as cores da Madeira no conceituado Torneio Lopes da Silva. Mais a mais, quando sabe muito bem a forma como lá chegou, reproduzida por si.

«Faltavam quatro treinos quando cheguei à Selecção da Madeira. Queria muito ser convocado para o Lopes da Silva, dei a minha vida e consegui. No máximo tinha um mês, mês e meio para provar. que merecia ser chamado…»
CARLO ANDRADE E MARCO ANDRADE
NO CORAÇÃO
Carlo Andrade e Marco Andrade. Luís é directíssimo e passa a falar de. dois «treinadores que ficaram no coração e que me deram muita confiança».
De colegas, cita dois, Michel e Nuno Caires: do primeiro diz que «sempre o conheci, tenho um enorme gosto por ele, pode ser extremo-direito ou lateral, infelizmente nunca teve muitas possibilidades mas agora começou a jogar, é muito humilde», remata, sem esquecer «os pés brilhantes» do centro-campista Nuno Caires.
SENTIA-ME UMA PÉROLA
Quando o tema são mesmo os melhores que encontrou no futebol até hoje, volta a atirar o nome do «mister Carlo…! Ajudou-me bastante, estava sempre a puxar-me para cima e a dizer que tinha qualidade. Eu, para ele, era como se fosse uma pérola mas fazia-o com todos… Fez-nos acreditar muito mas mesmo muito… O mister Carlo é uma mais-valia para o clube, graças a ele o Canicense cresceu bastante» E já que estamos a falar de técnicos, lá fora, admira Jorge Jesus e Guardiola.
FC PORTO CLUBE DE SONHO
Canicense é o seu clube da ilha mas na mesma proporção guarda um carinho muito especial por outros emblemas que representou no passado: quando posso vou ao Porto Moniz e ao Ribeira Brava. A escola é lá, é lá que também tenho amigos a jogar e apoio-os sempre como, por exemplo, o Guilherme Silva. Sem esquecer o Clésio (Côrte) que é um bom treinador».

No reino das suas preferências ao nível do continente e estrangeiro, cita os nomes do FC Porto e do Manchester City. «No FC Porto, desde a formação até acima há muita raça.
Sinto que também sou assim, é o único clube que as minhas características se adaptam, é também o meu clube de sonho, mais o City. Se um dia tivesse a possibilidade de os representar, gostaria, numa primeira fase, de começar na Cidade-Invicta. «Sinto que iria crescer muito por lá. Acho que seria um passo demasiado grande sair da Madeira para o City, primeiro gostaria de passar pelo FC Porto». Seria na Inglaterra que encontraria o «topo de carreira, o acesso à Premier League, no City».
Da Madeira elege Gonçalo Teixeira como o melhor jogador da Madeira a jogar por estas bandas, ao passo que no continente “o maior” é Rúben Queirós, que até foi o melhor jogador do Torneio Lopes da Silva e o profissional Sjchelderup para, no estrangeiro, admirar de forma especial o agora madrilista Mbappé.
SELECÇÃO NACIONAL SUB-15
NO RADAR
O sonho de jogar na Selecção da Madeira está cumprido e a bússola já aponta a outro…
O seu trabalho ao longo destes anos já encontrou eco a este nível, sendo convocado para a tropa de elite regional e com representação na última edição do Torneio Lopes da Silva. Luís recorda-nos alguns desses fascículos vividos no seio do grupo de trabalho da Madeira.
Fui chamado quando devia faltar um mês e meio para a fase final, fui muito bem recebido por todos, é uma experiência que não se esquece na vida.
Tive também todo o apoio do capitão Gonçalo Teixeira, que foi à seleção de Portugal e ainda bem porque quero que seja feliz, estou bastante feliz por ele e ele merece.
Da sua parte, assevera, existe a firme convicção de que um dia também possa vir a ser convocado pelo seleccionador nacional.
Estou a trabalhar para isso, o maior objetivo é chegar à seleção nacional sub-15 e não vou desistir tão depressa.






